Ela usava preto...





Havia uma vez em um sonho uma bela moça de cabelos negros e olhos profundos, uma vez, uma única vez, eu olhei para ela e ela me voltou o olhar com um ar tão penetrante que daria para ver através do seu vasto sorriso uma alma um pouco turva, ela tinha aptidão em encantar os rapazes da cidade, dançava, cantava, jamais poderíamos vê-la na solidão, não negava pérolas nem diamantes, ela brilhava e tinha um belo coração, mas ninguém no salão imenso conseguirá olhar suas atitudes olhavam apenas a sua beleza, ela usava preto.
  Uma certa vez já acordada vi uma moça muito parecida com a do sonho, tentei olhar para seus olhos só pra me certificar se eram os mesmos olhos profundos, ela não deixou... O seu jeito diferente da garota do sonho era acanhado, ela tinha os olhos e a cabeça baixa, depois de algum tempo eu me desviei o olhar e ela sumiu, talvez tenha corrido, talvez eu a tenha assustado... Ela também usava preto.
   Passado alguns anos estava eu em um lindo jardim, um vulto com muitos véus pretos e esvoaçantes passou tão tão rápido que eu cheguei a duvidar da minha própria mente, talvez fosse imaginação, o jardim não era claro, tinha um lindo crepúsculo no horizonte, esqueci, me distrai com o ultimo voo dos pássaros, era uma sensação tão magicamente aconchegante que mesmo sozinha eu jamais ousaria sair dali.
    Indo para casa, uma mulher nem velha, nem jovem, dos cabelos negros e olhos assustadoramente profundos me parou no meio da calçada em frente a uma igreja, ela dizia " Sente-se como a moça do teu antigo sonho, liberte as borboletas que existem em você", ela falou isso com tanta seriedade que qualquer alma que a escutasse falar não ousaria ignora-lá...Ela usava preto.
    Eu não entendi aquela frase, naquela altura nem ao menos sabia de que sonho se tratava, então dormi, o sono mais imenso e pesado de toda a minha vida... O sonho tinha três mulheres, uma não negava pérolas nem diamantes, tinha um olhar profundo e usava preto, essa era a mais alegre ela deixava dúvida sobre o que sentia de verdade. A outra era acanhada, tinha longos cabelos pretos, eu não conseguia olhar nos teus olhos, usava preto, me parecia entristecida. A última tinha cabelos longos e negros um olhar assustadoramente profundo que ninguém jamais ousaria ignorar, ela parecia sábia, e dizia "não te tornes uma sábia infeliz, não seja tola de esconder o que sente, jamais se esconda, não se torne uma coisa só, liberte as borboletas que vivem em você", ela usava preto... Então as três se tornaram uma só e se desmancharam em borboletas que subiram, subiram e subiram...

     As três moças eram a metamorfose, usavam preto por ser a junção de todas as cores. As três moças eram uma só por não se fixarem em um único pensamento e libertarem a mente libertando assim... As borboletas.
Não se limite, voe!

                                                                                                                 Lectícia Péttine

Desenho do meu querido amigo e meu artista preferido Eduardo Seiji.

                                                

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